Lançada em 1982, a HQ francesa Le Transperceneige imaginou um futuro pós-apocalíptico em que a humanidade condenou o planeta Terra a uma nova Era do Gelo e, como consequência, obrigou o que sobrou da população mundial a vagar em um enorme trem, sem parar. O quadrinho, que chegou ao Brasil com o nome de O Perfuraneve, foi adaptado para os cinemas em 2013 pelo cineasta Bong Joon Ho (Parasita) em Expresso do Amanhã, que com um elenco estrelar ampliou tanto a trama, quanto sua veia crítica. Sete anos após o lançamento do filme, esse universo volta à vida na série que chegou à Netflix em maio, misturando elementos de todas as suas versões em uma proposta inovadora.
O seriado Expresso do Amanhã se baseia na mesma dinâmica que as obras anteriores, abordando o conflito gerado pela desigualdade no trem que abriga o que restou da humanidade. Enquanto os vagões da frente usufruem de grandes luxos como roupas novas, comida fresca e até saunas, os que vivem nos fundos lutam para sobreviver em meio a uma condição desumana cada vez mais degradante. O protagonismo da história é dividido por duas distintas pontas do veículo. De um lado está o “fundista” Andre Layton (Daveed Diggs), um ex-detetive que invadiu os vagões traseiros da embarcação e estava prestes a iniciar sua viagem apenas com membros da elite. Do outro, está Melanie Cavill (Jennifer Connelly), funcionária da secretaria e responsável pelo bem-estar da camada mais privilegiada de sua tripulação. Os caminhos deles se cruzam quando um inesperado assassinato acontece na Terceira Classe, tirando a paz da organização do trem e seu dono, o misterioso Sr. Wilford.
Em seus primeiros minutos, a série parece tomar o mesmo caminho das outras histórias desse universo, cujo núcleo gira em torno do conflito de classes e a luta dos fundistas para tomar conta da locomotiva e promover um tratamento mais igualitário no trem. Porém, a inclusão de uma trama focada na investigação de Layton dá uma guinada inesperada para essa jornada, ao incorporar uma dinâmica menos combativa e mais estratégica. Ao contrário de Curtis, protagonista original que avança por meio da violência tanto na HQ quanto no filme, o detetive aprende a importância de pensar em diferentes táticas logo no primeiro episódio, quando coloca um plano improvisado em ação. Ao mesmo tempo, essa inovação se deve ao flerte com o gênero policial, gênero pouco provável de se encontrar em uma obra pós-apocalíptica cujo principal foco é a sobrevivência.
Esses novos caminhos, porém, não ignoram o que já havia sido estabelecido anteriormente tanto nos quadrinhos, quanto no cinema. Além de absorver muito da estética do longa dirigido por Bong Joon Ho, a série pega emprestado episódios narrados nos quadrinhos, que se passam anos após os eventos da série. É nesse equilíbrio entre respeitar o que já foi definido e a coragem para ousar que Expresso do Amanhã se mostra uma produção digna de atenção. Completa por uma performance satisfatória por parte de seu elenco, a produção demonstra grande potencial, algo que deve ter sido visto pelos executivos da TNT, sua emissora original, que já encomendou a segunda temporada.
O grande obstáculo que Expresso do Amanhã encontra está justamente na falta de tensão. Elemento-chave das versões anteriores, o suspense é quase inexistente no episódio de estreia da série. Ainda que carregado de momentos aflitivos e até comoventes, “First, the Weather Changed” não sustenta esse nervosismo nem mesmo no sangrento embate entre os fundistas e os guardas do trem, desperdiçando diversas oportunidades de fazer com que o público mergulhe de vez nesse mundo gelado. Considerando que a produção tem como showrunner Graeme Manson – que tem vasta experiência com suspense graças ao seu trabalho em Orphan Black -, é possível que o trem faça uma correção de curso e se torne um dos destaques de 2020.
Disponível na Netflix, a primeira temporada de Expresso do Amanhã ganha novos episódios às segundas-feiras.
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